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O louco de La Mancha

25 mar

Eu sou um cara que já leu muitos clássicos da literatura mundial ao longo da minha vida. Muitos foram ótimos, outros tão tediosos quanto sair com a prima feia a chata que você tem, uns poucos foram quase intragáveis. Mas desses falarei mais tarde…

Contudo, menos ainda me fizeram dar tanta risada quanto Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Se você não veio de Alfa Centauro, deve saber que Dom Quixote é o velhote maluco que pensa que é um cavaleiro e ataca a tudo e a todos com sua armadura velha e enferrujada e seu pangaré no afã de viver grandes aventuras. Tudo bem que ele ataca moinhos de vento e enfia a cabeça na boca de um leão no processo, isso o deixa mais engraçado ainda.

Dom Quixote em plena ação!

A história gira em torno de, claro, Dom Quixote e suas façanhas um tanto quanto duvidosas e de seu fiel e cansado escudeiro, Sancho Pança. Basicamente, o cara leu tantos livros sobre aventuras de cavaleiros medievais que ele mesmo certo dia começou a pensar que era um cavaleiro medieval também, com sua heróica pose e garbosa armadura… Sim, o cara ficou pirado da idéia de tanto ler aquelas merdas, num processo muito parecido com o que acontece hoje em dia com fãs de animes. Ou vocês acham normal o sujeito se vestir de cavaleiro do zodíaco e ficar gritando meteoro de pégassus pra todo lado? Ao menos hoje em dia temos meios de confinar esses malucos com coisas chamadas eventos anime. Assim eles não machucam ninguém ou se machucam fazendo suas maluquices. A quem eu estou querendo enganar! Esses caras se cortam feio com espadas de plástico! Não tem nada mais patético que isso…

Mas sobre o que eu estava falando?

Ah, sim, Dom Quixote!

Nosso bom homem, além de ser um maluco por livros de quinta categoria  tem um pequeno título de nobreza. O que lhe confere uma pequena propriedade e uma pequena renda para viver confortavelmente com seus empregados e sua sobrinha cujos pais não lembro de onde estarem… O que não é pequeno nele é o tempo usado para ler romances de cavalaria. Bem, como ele é um nobre que não faz nada da vida, basicamente fica o dia inteiro lendo aquelas merdas.

Bem parecido com alguns leitores de mangás de fãs de animes, não? Chega, não vou mais ficar fazendo essas analogias idiotas, eu acho.

Enfim, o cara junta um biblioteca inteira disso. O que deixa sua família muito assustada a medida que ele começa a descabeçar. O pároco do lugar tenta de todo jeito fazer com que nosso amigo volte ao senso comum, mas sem sucesso. Dom Quixote até se arrisca agora em pequenas aventuras em torno da região montando seu rocinante e vestindo uma armadura velha achando que é um cavaleiro.

Não me lembro o que acontece nesta parte da história, mas é o suficiente para a família do maluco lacrar a biblioteca dele a cimento. Quando Dom Quixote pergunta a eles o que aconteceu a biblioteca que não está mais no lugar de antes os sem vergonhas dizem que foi um feiticeiro inimigo seu que a encantou…

Belo jeito de se tratar de doentes mentais, eu diria. Mas existe o velho ditado de que não se pode contestar essa gente, então deixa eles serem felizes…

Só depois de muita conversa fiada é que Dom Quixote finalmente pega seu amigo Sancho Pança e sai em busca de aventuras mais interessantes do que olhar as redondezas e a bunda da Dulcinéia – sua princesa que não passa de uma camponesa feiosa, mas que ele acha linda. Aliás, deve-se dizer que Sancho é a figura mais engraçada da história depois de seu patrão. Ele só anda com o maluco porque é suficientemente ingênuo para levar um pouco à sério as lorotas dele. Principalmente quando diz que ao fim de suas aventuras irá premiá-lo com uma ilha, que será sua propriedade. Ele até consegue a tal ilha, mas passa por uns problemas tão estranhos que seria melhor que não a tivesse.

Sancho tentando colocar inutilmente algum juízo na cabeça do seu patrão.

Sancho também é o lado mais são da dupla. Enquanto Dom Quixote é o maluco que ataca moinhos de vento pensando que são gigantes ele simplesmente diz que aquelas coisas não passam mesmo de moinhos. Mas coitado! Como ele pode argumentar contra um cara que enfia a cabeça na boca de um leão? Tá que o leão tinha acabado de comer e estava sem fome, mas ninguém precisa saber disso…

Não vou ficar aqui comentando cada parte do livro, até porque eu o li há muitos anos e não lembro de tudo que tem nele. Só digo que é grande pra cacete.

Não sei ao certo o que Cervantes quis ao escrever esse livro. Se era falar dos costumes idiotas da sociedade da época ou só contar a história de um maluco por romances de cavalaria. A censura da época julgou que foi a segunda opção, portanto deixaram publicar sem problemas. Mas pra dizer que eu sou um leitor culto e antenado, vou ficar com a primeira opção, mesmo eu não sabendo jamais o que teria se passado na cabeça do autor.

Na época do lançamento, Dom Quixote fez um sucesso absurdo. Cervantes pode até ser considerado um dos primeiros best sellers do ocidente. Tanto sucesso que um esperto escreveu uma continuação não autorizada da história só pra ganhar uma graninha nas costas do cara.

Como não existia lei de direito autoral na época, Cervantes fez a única coisa que poderia; continuou a história ele mesmo. Além disso, usou fatos da continuação falsa como se um falso Dom Quixote tivesse passado pelos lugares antes do verdadeiro passar. Não é raro nosso cavaleiro ficar injuriado com coisas que dizem que ele fez sem ter feito na realidade.

Ah, devo dizer que essa continuação hoje é a segunda parte do livro, por isso eu disse que ele é grande. Se quiserem ler, não precisam sair procurando por Dom Quixote II, a missão.

Ao fim da continuação e de aventuras completamente malucas de onde Sancho e Dom Quixote saem quase ilesos por um triz – tá, com alguns ossos quebrados – eles finalmente voltam para sua pacífica fazendola no interior da Espanha.

E advinha o que acontece? Dom Quixote fica bom da sua loucura!!! Sim, ele deixa de ser um maluco pensando que é cavaleiro. De fato, começa até a detestar livros de cavalaria. No fim da vida faz a sobrinha jurar sobre seu leito de morte que nunca porá as mãos num livro desses, sob pena de perder a herança. Então ele morre… Sim, é uma cena triste.

Mas vejam bem, Cervantes só matou seu personagem pra que nenhum aproveitador o tomasse de novo e deixa isso bem claro nas últimas linhas do livro. Eu por mim gostaria que ele tivesse escrito mais uma continuação, pois eu iria adorar.

Bem, acho que é isso. Então se quiserem um bom livro de aventuras que seja engraçado ao mesmo tempo podem ler Dom Quixote, não irão se arrepender. E quanto aos spoilers, foda-se. O troço tem quase quinhentos anos de idade, não leu até agora porque não quis!

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Estou doido de tanto escrever!

27 set

Loucura…

Tema que aparece em um sem número de obras literárias. Hoje eu estive pensando em falar justamente dela. Muitos escritores usam o recurso do personagem louco como uma ligação mais íntima com o leitor, se for um doidinho mais simpático. Ou pode fazê-lo tornar-se um profeta. Monstros sanguinários também podem muito bem ser chamados de loucos.

Em resumo, malucos são uma mão na roda quando se quer criar um personagem interessante e cativar os leitores. Por isso eles sempre aparecem por aí ao longo do tempo e dos livros.

Uma explicação para isso seria a de que comportamentos ditos anormais, impressionam as pessoas. Eu penso que é isso mesmo. Ou alguém por aí acha interessante uma história sobre um sujeito comum fazendo coisas comuns cujo desfecho é totalmente previsível. Ninguém, e eu afirmo com veemência, gosta disso. Ninguém mesmo. É chato pra cacete e não serve pra nada.

Por mais normal e gente boa que seja um personagem, ele tem que ter um lado diferenciado. Algo na sua construção que chame a atenção. Funcionários públicos entediados podem ser bem mais palatáveis se o tempo todo imaginarem meios de matar os colegas de repartição, ainda que nunca o façam realmente na história.

Entendem onde quero chegar? Todo mundo é doido, só depende do ponto de vista e do talento do autor.

Eu diria até mais. Que a loucura pode ser apontada como um dos maiores temas da literatura. Hamlet se finge de doido – ou era mesmo – pra poder conseguir sua vingança. Dom Quixote é um velho maluco de carteira que gosta de espancar moinhos de vento e enfiar a cabeça na boca de um leão só porque pensa que é cavaleiro.

Exemplos não acabam nunca.

Seja maluco e torne-se um personagem interessante!

Seja maluco e torne-se um personagem interessante!

Muitos também usam o próprio ambiente para criar algo totalmente fora da realidade. Mas aí entramos no domínio do fantástico e das viagens de ácido do Lewis Carrol e sua Alice. Não falemos muito disso agora. Basta citar também as histórias de Franz Kafka, outro autor do qual nunca consegui passar da metade. Dou um doce pra quem encontrar algum traço de sanidadenaquilo. É uma puta duma viagem, malandro!!!

Ia colocar uma barata gigante agora, mas preferi não fazer...

Ia colocar uma barata gigante agora, mas preferi não fazer...

Pra terminar este texto pequenininho tenho só mais uma consideração a fazer. Os loucos, assim como a grande maioria dos personagens literários, são uma personificação em papel do que queremos ser em algum momento da vida.

Eu, por exemplo sempre quis ser os Dom Quixote…

O que vocês estão fazendo com essa camisa de força?

Era brincadeira, deixe esse troço quieto!

Gente mais paranóica…

Voltando. Os loucos existem porque as pessoas purgam seus desejos mais obscuros neles. Não podem sair dando cambalhotas na rua como bem entendem, mas se contentam em ler a revistinha da Mônica.

Eu, que não sei andar a cavalo nem tenho uma armadura pra poder me jogar em cima de um moinho, leio Dom Quixote…

Parem com isso, tirem essa coisa de mim! Eu não estou louco, não estou louco!

Já tomei meu remédio hoje, cacete!

Acho que agora tenho que ir. Até outro dia. O eletrochoque me espera.