Bolsa de criação literária da funarte e minhas humildes questões quanto a isso.

27 jul

Esta semana saiu o novo edital de Bolsa de Criação Literária da Funarte. Acho que todo mundo que trabalha com isso já deve estar sabendo. Eu mesmo já participei de alguns editais do governo –  no caso, com roteiros de cinema nos quais medalhões do mercado venceram, mas isso é um detalhe. Creio que todo mundo neste país que tenta trabalhar com cultura já participou de algum. Também imagino que todos saibam como é complicado o mercado de literatura num país onde, principalmente na escola, faz-se de absolutamente tudo para que as pessoas odeiem livros como se fossem objetos do capeta. Então, qualquer ajuda neste ambiente totalmente hostil à literatura nacional é muito bem vinda.

O problema é quando o governo começa com suas governices. Vamos ao parágrafo 1.2 do edital:

1.2. Os projetos concorrentes não sofrerão quaisquer restrições
quanto à temática abordada dentro da sua categoria, desde que
não caracterizem:
a) promoção política de candidatos e/ou partidos;
b) dano à honra, a moral e aos bons costumes de terceiros e
da sociedade;
c) pornografia;
d) pedofilia;
e) discriminação de raças e/ou credos;
f) tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins;
g) terrorismo;
h) tráfico de animais.

Já li um texto num blog – que infelizmente esqueci qual é, se souberem, me lembrem – sobre esse item exatamente. A pessoa que o escreveu teve argumentos muito mais interessantes, então eu vou só escrever umas poucas coisas sobre isso.

Primeiro, o tal tópico “b” que dispõe que os concorrentes não podem escrever algo que “caracterize dano à honra, a moral e aos bons costumes de terceiros e da sociedade”. Sério, quem foi o agente do SNI que escreveu isso? Qualquer obra literária séria ofende alguém de algum modo. Até a Bíblia ofende muita gente e atenta para a “moral e os bons costumes” – o que tem de incesto, estupro, assassinato, pornografia, etc  ali é algo impressionante para um livro “sagrado”. Faz qualquer escritor de pornografia hoje parecer um pináculo da moral. No entanto, temos esse item de censura… Eu fico imaginando que se, por acaso, George R. R. Martin fosse brasileiro e dependesse de bolsas do governo para escrever ele nunca publicaria As Crônicas de Gelo e Fogo, onde um dos temas centrais é o relacionamento incestuoso de dois irmãos gêmeos. Relacionamento esse que foi um dos motivos do início de uma guerra civil.

“Matei meu marido, o rei, para ficar com meu irmão e dividi o país no processo. A Funarte nunca aprovaria tal abominação à moral!”

Acho que o único tópico mais ou menos aceitável é o primeiro, que fala de propaganda a políticos ou partidos. Mas se eu escrever um romance histórico onde tenha o Brizola como um dos personagens centrais? Ou mesmo o Ernesto Geisel? Isso é fazer propaganda de político ou partido? Bem, vamos ter que depender da cabeça do jurado do negócio…

Mas deixemos isso pra lá por enquanto.

Por fim, eu tive a curiosidade de dar uma olhada nos vencedores do edital do ano passado. Bem, acho que essa lista já diz tudo. Das cinco obras a serem publicadas somente uma me pareceu algo que uma pessoa normal leria. No caso, o romance policial. O resto todo tem jeito de masturbação intelectual sem sentido. Querem ver?

“Documentário’ – Romance – Escrito em cinco partes o texto retrata a história de um escritor que faz psicanálise, para enfrentar seus escrúpulos em relação à escrita e tratar seus conflitos com a esposa. Cada parte da obra corresponde a um tipo de discurso literário: da narrativa clássica ao cinema, da crítica literária ao ensaio. Uma parte do livro é um filme, que será incluído na obra em um encarte na parte interna da edição. Outra parte é um livro de citações, próprias e de terceiros. Outra parte é a crítica do romance ao próprio romance. O projeto propõe um hibridismo entre diferentes linguagens de arte e gêneros de literatura.”

Sério, isso pra mim não passa de uma maçaroca sem sentido que serve simplesmente ao ego do autor. Fico pensando quais os critérios utilizados pela premiação… Só pra acrescentar, não tenho nada contra obras “experimentais”, caso elas sejam realmente boas. Mas esse negócio pode até ser que fique bom, caso o autor realmente seja espetacular. O que raramente acontece… Não aparecem muitos James Joyce ou Guimarães Rosa por aí, essa é a verdade. Embora apareçam centenas de lambe-sacos deles tentando fazer a mesma coisa, e falhando miseravelmente no processo. E nem falei no romance que não é romance porcaria nenhuma, mas um apanhado de crônicas sobre repressão na ditadura!

Esse pessoal parece que esqueceu de coisas básicas sobre produção narrativa. Uma delas sendo… a história! Se não tem uma história inteligível, porque cargas d’água a pessoa acha que encher o troço de figuras de estilo vai resolver? Uso como exemplo novamente o tal romance “Documentário”. O troço seria sobre um escritor fazendo psicanálise e tentando resolver a vida com a esposa. E daí? Cadê a porra do conflito da história? Porque ele está fazendo tudo isso? O que o move? Tratar “escrúpulos em relação à escrita”? Só isso? Mas na cabeça do autor, ele é um gênio! Foda-se a história! Crio um conceito retardado e encho a coisa toda de masturbação literária e serei o próximo Guimarães Rosa!

Essa é a literatura brasileira que o governo quer incentivar? É isso que queremos pra nós mesmos?

No fim, isso tudo é um problema muito complicado que começa na apresentação terrível que é feita às crianças na escola do que é literatura brasileira. Professores, enfiar Dom Casmurro na cara de um garoto de 13 anos é pedir pra ele odiar livros, aprendam isso de uma vez! Depois as editoras não publicam quase nada de literatura nacional porque a maioria das pessoas foi condicionada na escola a odiar tudo relacionado a isso, e também porque tem muita porcaria no mercado mesmo. No fim do processo, temos os editais do governo, com suas regras estranhas e premiados que, na brutal maioria das vezes, não contribuem em nada para a tal literatura brasileira, mas apenas para seus próprios egos.

Pra terminar, talvez eu até mande um projeto pro tal edital. Mas duvido muito que uma fantasia baseada na América do Sul do século XV agradaria aos doutos julgadores. Até porque, eu não pretendo encher o troço de figuras de estilo vazias, mas da boa e velha narrativa que todos amam e conhecem. Provavelmente ela estará cheia de coisas que atentam à moral e os bons costumes também…  Se vai ficar bom, é outra história.

Ah, e desculpem o texto sem graça. Não consegui pensar em nenhuma piada interessante sobre o assunto. Fica pra próxima!

2 Respostas to “Bolsa de criação literária da funarte e minhas humildes questões quanto a isso.”

  1. Renata Ornelas 28/07/2012 às 11:24 #

    Michel, não precisa de piada; seu texto diz TUDO! Bjos para vc e… fiquei interessada em sua história. Espero poder lê-la.

  2. Discordius Erisianus 09/08/2012 às 1:49 #

    Você tem razão sobre Dom Casmurro. Minha face tinha 15 anos quando esse livro a atingiu, e ela ainda não o perdoou por isso.
    Acho difícil achar quem leia essas coisas. Esse livro que você descreveu parece até complicado de mais para que as tias forcem seus alunos de ensino médio a lerem, ou seja, ninguém lerá.
    Talvez eu leia se ganhar uma cópia.

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