O fantástico mundo do realismo fantástico!

21 ago

Todo mundo gosta de Tolkien, suponho. Na verdade não se encontra ninguém atualmente que nunca tenha ouvido falar ao menos, de leve, de alguns desses livros da moda como é hoje. Sim, Harry Potter e Senhor dos Anéis são praticamente obrigatórios pra qualquer pré-adolescente metido a intelectual e leitor tem que ver.

Todos gostam de fantasia. Até seu tio chato.

Todos gostam de fantasia. Até seu tio chato.

E porque essas histórias fazem tanto sucesso? Ora, as pessoas amam uma forma de escapar da realidade, serem transportados para mundos alternativos onde o impossível acontece. Sim, a fantasia é uma forma de não sucumbirmos à insanidade da vida quotidiana. Um jeito de nos conectarmos a algo dentro de cada um de nós acessível apenas durante os sonhos. Podemos dizer que fantasias são como sonhar acordado. Eu digo que é o que nos torna humanos.

Sim, humanos. Pois formigas criam estruturas e macacos ferramentas, mas só nós sonhamos com o que não existe…

Mas estava aqui pensando. A fantasia somente serve pra nos transportar ao sonho? Bem, alguns malucos aqui da América do Sul pensaram um pouco diferente. A grande maioria deles já eram jornalistas experimentados da rua e das cervejas e outras substâncias do boteco perto da redação. De onde mais vocês acham que eles tirariam sua inspiração primordial?

Grande parte deles eu considero também simpatizantes das tendências do New Journalism, que andava muito famoso na década de 60, pois muitos de seus trabalhos estão cheios dos conceitos que Tom Wolf e sua turma nos Estados Unidos propuseram. Relato de um Náufrago de Gabriel Garcia Marquez, na minha opinião, é um grande exemplo desse tipo de jornalismo por essas bandas latinas.

"Baseado numa história real", mas muito mais interessante!

"Baseado numa história real", mas muito mais interessante!

Não vou perder o meu tempo descrevendo o livro, até porque quero que vocês o leiam também. O que posso dizer é que fala de um náufrago (dãh) que se perdeu do seu navio no meio do Golfo do México e foi encontrado no litoral colombiano a sei lá quando porrilhões de quilômetros. Tudo real e devidamente noticiado com o alarido exagerado que os jornais gostam de fazer nessas histórias. Afinal o sujeito era um herói que sobreviveu a condições terríveis. E a tubarões!

UMA MERDA DE UM CARDUME DE TUBARÕES!!!

O cara era foda, enfim. Mas o livro diz que ele não era tão foda.

Contudo, isso não é realismo mágico, mas só jornalismo bem feito – coisa que anda em falta hoje em dia.

Bons exemplos do gênero podem ser encontrados nas obras de Garcia Marquez também. Eu cito dois; O Amor nos Tempos do Cólera e o onipresente Cem Anos de Solidão.

Contudo, devo ser sincero e dizer que foi o primeiro que me marcou mais. As cenas onde o protagonista toca violino a noite para adormeçer a cidade está entre as mais lindas que eu já li até hoje.

Vargas Llosa também é um outro ícone do gênero, embora a produção dele tenha caído ultimamente. Ou você acredita que escritor de Batismo de Fogo é o mesmo de Travessuras da Menina Má? Sério, o cara teve uma queda de rendimento brutal. Acho que devido a candidatura a presidência do Peru, mas nunca saberemos…

Certas pessoas não deveriam entrar pra política.

Certas pessoas não deveriam entrar pra política.

Agora, voltando ao papo conceitual. Porque cargas d’água chamam esse tipo de literatura de realismo mágico ou fantástico? Se você teve um professor mediano na escola certamente ele te disse que porque eles misturam elementos de fantasia com realidade.

Bem, em parte é verdade. Mas como explicar as obras do senhor da foto ali em cima? Lá não tem coisas muito mágicas aparentes, ao contrário do seu coleaga colombiano. Então, o que ele seria?

A turma das faculdades de letras certamente discordará de mim. Mas como este é meu blogue e não dou a mínima pra o que eles pensam, vou dizer assim mesmo.

O que chamam de realismo fantástico, ou mágico pra mim não passa de uma vontade desses escritores de transcederem a uma realidade política na qual eles viviam. Sim, senhoras e senhores. Essas pessoas escreviam porque era moda bancar o super intelectual nas esquerdas latino-americanas da segunda metade do século XX. De vez em quando até dava pra descolar um sexozinho sem compromisso…

Por isso é difícil encontrar esse tipo de escritor atualmente. Quase ninguém quer escrever e muito menos gente ler. É triste, mas é um fato. O realismo mágico perdeu-se entre golpes de estado e milicos da década de 60. Precisou desesperadamente deles para viver e morreu com eles.

Hoje não é mais moda e sim os livros de auto-ajuda de como ganhar dinheiro e fazer amigos com um peido cheiroso…

Talvez as pessoas não precisem mais de um sonho que as incomode. Ou talvez tenha sido uma coisa extremamente datada mesmo. Fazer o que?

Alguma sugestão?

Até a próxima!

Nota: Este texto foi composto ao som da trilha sonora de O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel🙂

5 Respostas to “O fantástico mundo do realismo fantástico!”

  1. Melfra 24/08/2009 às 0:35 #

    Michel, sou o Melfra da Square-Reunion.
    Gostei bastante do seu artigo! Sua perspectiva é atenta à dimensão política e eu valorizo muito essa dimensão num texto que se supõe crítico. Você já leu o famoso estudo de Todorov sobre literatura fantástica? É outra abordagem, naturalmente, mas tem observações muito inteligentes.

    PS: o que você acha de Borges?

    Parabéns pelo artigo!

  2. micheloliveira 24/08/2009 às 15:17 #

    Eu tenho o livro de Todorov sobre isso. Mas há séculos não leio, então, já esqueci.

    Quanto ao Borges, acho que não li nada dele. Minha memória às vezes é uma merda.

  3. Pedropã 28/08/2009 às 0:02 #

    haha
    Boa, Máicou!
    A idéia de fantasia e herísmo muito me apetece. No caso brasileiro acho que os marmanjos vestem-se de s-heróis até hoje – e levam muito a sério.

    É verdade que até criticam quem usa cosplay – com um oclinho de Clark Kent acima do nariz e cueca vermelha por cima do colant… Mas muitas vezes são as mesmas pessoas que vestem a fantasia do Milan, com a inscrição do “superastro” Kaká nas costas…

    P.S. Bem, tá certo. Kaká não é nome de herói alguma… mas até que cai bem prum “sidekick”.

    ;-P

  4. Daniel Braga 28/08/2009 às 19:28 #

    Ah muleke! Bela análise, comentários precisos, com pitadas generosas de ironia enraivecida. Manda ver mais, assunto é o que não falta: literatura brasileira contemporânea, televisão, música, modas de Internet e afins.

  5. Amidamaru Reborn 03/08/2011 às 18:30 #

    Opa, maravilhoso texto. Não chamaria de artigo, mas sim de uma bela visão geral sobre o tema. Sobre o aspecto fantástico é como voc~e diz ele é apenas a casca da essência. Quem teve um bom professor sabe que as motivações estão nas ditaduras Altino-Amercianas das décadas em que esse tipo del iteratura fopi produzido.

    Sobreo vargas Loosa acredito que o problema seja que como regime está abnerto agora ele não tem mais a motivação e nem o desejop de criticar as coisas. Não é necessário mascarar o conteúdo político e nem trabalhar a qualidade do livro para que ele possa passar pela Censura, mas é necessário escrever e lançar. Claro, é minha opinião. Às vezes a queda vertiginosa da qualidade de um tipo de texto deve-se ao problema do seu cointexto e desse tipo de literatura não ter mais total sentido como no caso da literatura realista e fantástica.

    Enfim estou repetindo o que você disse e tentando complemetar o texto. Apenas queria dizer que o post está show de bola.

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