Arquivos | janeiro, 2011

“Fugidinha”: uma análise semântica.

30 jan

Muito bem, antes de mais nada digo que ando com uma preguiça extraordinária de escrever aqui. Por isso ando demorando pra atualizar. Espero corrigir isso num breve momento.

Então vamos ao assunto agora:

Todos vocês devem estar familiarizados com o estrondoso sucesso de um gênero musical hoje conhecido como “sertanejo universitário”. A verdade é que qualquer porcaria hoje chamam de universitário. O que me faz pensar no tipo de ensino que vem sendo dado por aí… Mas eu sou um jornalista! Quem sou eu pra falar mal dos procedimentos pedagógicos dos outros quando eu mesmo não levei os meus a sério? Enfim… Estamos falando de música aqui, não critica ao Ministério da Educação.

Mais especificamente a “música” produzida por um xará meu: Michel Teló.

 

Se eu fizesse uma cara dessas na foto meu pai me deserdava...

Então, esse cara de corte de cabelo duvidoso, que por desgraça da sorte tem meu nome, vem fazendo muito sucesso nas festinhas com suas músicas descoladas e estilo irreverente. Ou não, não presto atenção a essas coisas mais do que o que sou obrigado a ouvir num rádio eventual a me ferir os ouvidos. Em outras palavras: só escuto essa merda porque sou obrigado por força maior.

Mas o que faz meu xará – acho que vou trocar de nome depois desse texto – ser tão popular? Sinceramente, creio que deva ser a mistura de músicas dançantes com cara de idiota-homossexual-fashion. Existem vários por aí hoje em dia e você, que ouve essas porcarias todo dia, pode citá-los.

ADENDO!

Sim, eu sei que você parou aqui depois de uma procura no Google e pensa encontrar algo sobre seu ídolo para mostrar pras amiguinhas. Mas lamento, só vai ter a verdade de mim. E como é dito, a verdade dói.

FIM DO ADENDO.

Podemos resumir suas músicas como um grande emaranhado de refrões destinados a colar na cabeça das pessoas da forma mais perniciosa possível… Uma vez instaladas na mente da vítima não podem ser retiradas, sob pena de arrancar um bom naco de inteligência da pessoa ao mesmo tempo que destroem as sinapses existentes. Em resumo, uma praga.

Mas estou enrolando muito. Vamos ao que interessa, que é analizar academicamente a peça intitulada “Fugidinha” de autoria de meu malfadado xará.

Sério, vou trocar de nome depois disso…

Fugidinha

Tô bem na parada
Ninguém consegue entender
Chego na balada
Todos param pra me ver
Tudo dando certo
Mas eu tô esperto
Não posso botar tudo a perder

Este é o primeiro verso da música. Nota-se que o eu-lírico expõe o fato de estar em sua plenitude como pessoa em seu meio social. No caso, a balada. Notadamente, todos gostam dele e o respeitam. Contudo, não há motivo explicito para isso, de modo que só podemos aceitar que é dito. Até mesmo na segunda estrofe é dito que ninguém consegue entender. Muito provavelmente nem mesmo o próprio eu-lírico. Apesar disso, nas útimas estrofes é colocado que ele não pode “botar tudo a perder”. Sendo esse “tudo” na minha opinião, explicitado no verso posterior e seguintes mesmo que de forma um tanto quanto enviesadas.
Sempre tem aquela
Pessoa especial
Que fica na dela
Sabe seu potencial
E mexe comigo
Isso é um perigo
Logo agora que eu fiquei legal

Neste segundo verso o eu-lírico fala de uma “pessoa especial”. Não se sabe mais nada dela a não ser que tem “potencial” e “mexe” com o personagem. Neste caso, como é uma letra de sertanejo universitário supõe-se que se trata de algo de conotação sexual. Muito provavelmente um objeto de desejo do eu-lírico, tal como uma musa ou algo assim. Contudo, no decorrer do texto o personagem diz que isso é um perigo. Há um impedimento para que o desejo pela pessoa se concretize. O que se pode supor que os tais amigos da balada não veriam com bons olhos essa união. E, uma vez sendo uma balada, pode-se argumentar que é uma balada gay.
No momento todos respeitam o eu-lírico gay. Mas ele nutre desejo por um ente do sexo oposto, o que pode fazer com que ele perca este respeito rapidamente, fazendo com que as coisas não deem “tão certo” pra ele. Então podemos pensar num real empecilho para a concretização do desejo. A última estrofe fala que ele “ficou legal” há pouco tempo. O que pode indicar que o eu-lírico já sofreu reveses desses outras vezes e sabe as consequências disso, preferindo por manter suas preferências em segundo plano para não ser afetado socialmente.
Uma análise de cunho hétero também pode surtir o mesmo efeito aqui.
Tô morrendo de vontade de te agarrar
Não sei quanto tempo mais vou suportar
Mas pra gente se encontrar
Ninguém pode saber
já pensei e sei o que devo fazer
O jeito é dar uma fugidinha com você
O jeito é dar uma fugida com você
Se você quer
Saber o que vai acontecer
Primeiro a gente foge
Depois a gente vê.

Este é o último e maior verso da peça e traz a conclusão do problema apresentado na anterior. Posto que não pode satisfazer seu desejo pelo sexo oposto de modo aberto e explícito a todos, seu desejo só aumenta a ponto de ficar incontrolável. O que o leva a tomar medidas mais desesperadas, como fugir dos olhos de seu círculo social a fim de escapar das críticas que virão de tal comportamento. É uma conclusão simples e o problema está teoricamente resolvido, sem que nenhuma das partes tenha que demonstrar o que é publicamente para seus congêneres de balada.

Em resumo, a música fala o tempo todo de uma bicha enrustida que tem medo de dar loucamente ou de uma bicha louca que não quer aparecer com mulher do lado. De qualquer jeito, o personagem do texto não é sexualmente bem resolvido. Fim da análise.

Quando um livro pesa

9 jan

Vamos largar um pouco a preguiça de atualizar isso. Terminamos as festas de final de ano e até agora não consegui atualizar isto aqui. Tudo porque meu computador velho de guerra foi para o além e tenho que me virar com um notebook emprestado. Quem disse que as coisas são fáceis?

Então, como faz tempo que não escrevo vou falar de outro livro – mas já tenho algo sobre videogames preparado, não se preocupem.

Sem mais enrolação digo que o livro que ando lendo chama-se As Memórias do Livro. Fala de um códice medieval judeu encontrado na Bósnia na época da guerra civil. Uma especialista australiana é chamada para… sei lá pra que ela é chamada! Esse é o primeiro problema da história. A mulher é contratada para, teoricamente, restaurar o livro velho. Mas tudo que ela faz é recolher pedaços de coisas que caíram nele ao longo dos anos como asas de insetos, sal e gotas de vinho. Pensei que restauradores de livros altamente graduados fizessem coisas mais interessantes do que pegar pedaços de pergaminho velho e depois sair da sala sem ter mais nada a fazer… Mas divago…

O que me chateou bastante na coisa toda é que esses pedaços servem de mote para contar a tal história do livro medieval judeu, passando pela segunda guerra até a inquisição espanhola. Tudo muito bom e muito legal, não fosse por um pequeno probleminha: A narrativa é a coisa mais chata que já vi recentemente. Nem mesmo O Silmarilion consegue ser tão arrastado quando ele.

Outra coisa muito pior: Todas, absolutamente todas as histórias do passado do códice medieval remetem a judeus sendo perseguidos, censurados e ferrados nas mais diversas épocas e lugares. Tudo bem, é um livro judeu, mas será que em quase quinentos anos de vida essa porra nunca passou nas mãos de quem não era judeu? Por que não apenas um cara que gosta de colecionar essas coisas? Esse tipo de gente sempre existiu… Mas não, a autora quer mostrar como os judeus foram ferrados e humilhados por toda a história do ocidente! Tadinhos deles, o único povo no mundo que foi vítima disso!…

Sério, isso é patético.

O pior é que tal história chata e sem graça foi premiada nos Estados Unidos, país natal da escritora.

Podem me chamar de qualquer coisa, mas não tenho saco pra um livro cujo interesse é fazer um povo de coitadinhos e injustiçados da história. Como se só os judeus tivessem sido massacrados em toda a história da humanidade…

Nas histórias podemos encontrar meninas judias tentando escapar de nazistas, médicos – judeus – e padres católicos renascentistas que fazem de tudo para esconder sua origem… judia… Tudo é motivo para falar como os judeus são mal vistos pela sociedade de todas as épocas. Uma papagaiada só.

Em resumo, não gostei nem um pouco da coisa toda.

Pra terminar tem a história da tal especialista em conservação de livros. Mas ela é chata e sem sal, além de ser mal construída.

Sugiro evitar essa pilha de letras sem graça e partir para A Clash of Kings. Muito mais interessante.

E pra terminar, não sou anti-semita. Simplesmente gosto de boas histórias, e não propaganda mal feita. Sim, to revoltado hoje!

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